Assisti a um bom filme dia desses: Um sonho de amor (sei, o título não
ajuda). Algumas cenas despretensiosas reverberaram, justo aquelas que se passam
na cozinha da casa de uma riquíssima família italiana. Aristocráticos, mantêm funcionários
em número suficiente para mimar individualmente cada integrante da família. Mas
nos dias de banquete é que os bastidores brilham. Cada um dos pratos é montando
pelo chef, funcionários de luvas carregam dois a dois todos eles até a sala de
jantar. Mas o que me chamou a atenção foi a distância da cozinha com a sala:
corredores e três lances de escada separam a refeição do comensal. Pratos
imensos, pouca comida, clima milanês, é comida fria na certa.
Manter a cozinha distante da sala
onde os “patrões” se sentam para comer tem uma leitura lógica e hierárquica,
misturar os dois cômodos recenderia a sedição. O intuito é manter longe da
realeza ou da aristocracia os cheiros, o barulho e o risco de incêndio.
Assim é
a cozinha Real do Palácio de Madrid. Matéria exclusiva trouxe a repórter Luiza
Fecarotta, que foi convidada para visitar essa que é a mais bem conservada
cozinha palaciana do século 19. Até os cardápios escritos a bico de pena estão
por lá. E eles ajudam a contar a história da alimentação real. Nenhuma
novidade, os reis espanhóis e seus convidados comeram faisão, trufa, foie gras, peito de pato, filé de capão,
costeleta de cordeiro, creme de aspargos.
A magnitude não se compara a nada que
conhecemos, um conjunto de vários cômodos imensos tomam uma área maior que
muita casa grande. Para atender à mesa palaciana tinha-se: a sala da
confeitaria, a sala da lenha e combustíveis, a drogaria, a sala do serviço de
mesa, a de infusões e refrescos, molhos e condimentos, a despensa, a sala de
carnes, a de verduras e a cava. Ainda uma cozinha específica somente para
atender ao rei. Havia ainda uma terceira cozinha, exclusiva para o
reaproveitamento das sobras reais, destinadas aos serviçais, e a ante-cozinha,
ou sala de preparo, onde se realizavam os serviços mais grosseiros, como o
destrinchar de carnes e a lavagem de hortaliças. A saber, a drogaria trabalhava
principalmente com especiarias. A fama da cozinha? Muito boa, mas os
comentários é que a comida chegava sempre fria à mesa, devido a distância entre
as salas de serviço e a sala de refeições.
Tempos simpáticos são os das cozinhas
atuais. Os balcões que as separam das salas, às vezes nem isso, mergulham a
casa inteira nos inebriantes cheiros. O preparo da sopa, o assar do pão, o refogado são interpretados
como zona de conforto. O risco de incêndio ou explosão foi solucionado de forma
simples: para fora, o botijão de gás, para dentro as comidas e a gente.

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