domingo, 4 de fevereiro de 2018

Persistência à japonesa



Numa mesa social, admirava-me a exuberância da explanação. O poder de decolar e aterrissar os ouvintes, fazia-me prazerosamente de vela ao sabor das palavras assopradas por quem detém o poder do encantamento. Mas isso mudou. Não se trata dizer que aprecio as pedradas da ignorância que, mal saídas da boca, já atingem o chão, não; é só que, o silêncio de quem se utiliza do direito de permanecer calado, tem me interessado. Por isso, estava há meses tentando comprar o livro da silenciosa e grandiosa chef de cozinha Mari Hirata. Além de saber do potencial técnico do livro, são inspiradores a confiança e delicadeza que sua imagem transmite. Algo relacionado a portas que correm, não batem, sapatos de pano, vértebras que vergam em agradecimento, flores de cerejeiras ao vento.

Hirata é formada pela ECA, a Escola de Comunicação e Arte da USP, mas foi num ano sabático em Paris, após a formatura, que a sua biografia começou a se delinear. Começou a frequentar cursos livres de pâtisserie, vinhos e cozinha francesa. Ao final do curso, sua professora a convidou para trabalhar no Le Palais de Dames, uma doceria composta só por mulheres. Um ano depois era a chef pâtisserie do Caeser Park, em São Paulo, e lá experimentou o fracasso - seus doces, pouco doces, desagradavam aos apreciadores de compotas e brigadeiros de arranhar a garganta.

Desorientada, resolveu tentar o Japão, onde é contratada como estagiária numa doçaria tradicional. Trabalhava das 7h. às 19h. em troca de comida e moradia. Pela integração social, introjetou a implacável etiqueta do país oriental na década de 80: mulher não fala alto, não gargalha, não cruza as pernas...  Seu talento com os doces a levou, enfim, ao mais alto posto: a confeitaria imperial do Japão, a Toraya. Mari integrou a equipe, esbanjou seu talento, se apaixonou e casou com outro funcionário da casa. Por isso também foi obrigada a deixar o emprego, pois, como esposa japonesa, foi alçada à condição de administradora da casa, impossível conciliar. Mas, novamente, as adversidades desabrocharam seus encantos e, hoje, Mari é referência da cozinha brasileira no Japão e da japonesa no Brasil.

Mantém uma escola que é reconhecida pela qualidade do que ensina, mas é também ponte diplomática entre os dois países. Trinta anos se passaram desde sua chegada ao Japão. Hoje, é respeitada e acolhida como um japonês. O motivo? Ela não titubeia: as seguidas demonstrações de persistência, com a vida, o trabalho, a família.

Seu primeiro livro é ótimo, mas esse, Mari Hirata sensei, é de cabeceira, é de cozinha, não só pelas receitas, mas pela técnica revelada em cada uma delas.

É preciso um pouco de conhecimento para entender o valor dos amálgamas propostos. Talvez nada disso: uma boa boca e mãos dispostas serão suficientes para uma bela degustação.

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