Há algum tempo, estou com vontade de falar dela. Tenho me esquivado e descobri que não gosto de corresponder ao imaginário sedimentado nas pessoas, é dizer o óbvio, dispensável, portanto.
Há pessoas que atraem para si uma espécie de facho de luz concentrado que ilumina intensamente um aspecto da vida fazendo com que os outros permaneçam envoltos por uma sombra densa. Normalmente isso acontece quando o “iluminado” oferece algo de que gostamos muito de ver ou de saber, pode ser o belo, o horroroso, o aprazível ou o asqueroso. Parecemos perigosos, mas muitas vezes somos só as Najas hipnotizadas pelo que é seduzível.
Então dizer que a professora Jurema Xavier é uma mulher educada, elegantíssima e bonita em nada contribui para o coral. Mas dizer que ela gosta muito de comer, e que o fazia com parcimônia e prazer, pode acrescentar algo. Claro que essa é minha opinião, não se trata de verdades, é que a imagem da mulher que foi minha professora há uns vinte anos vem associada a comida, ou talvez seja só eu a transformar pessoas em quitutes...
Nossa amizade gastronômica começou em algum julho do passado já distante, quando o sempre jovem coração dela descompassava pela proximidade de Paris. Todos nós, alunos, sabíamos que as férias de julho dela e do marido eram dedicadas ao flâneur parisiense, cidade que ambos amaram incondicionalmente. Eu sei, isso é um clichê, mas no caso deles era verdadeira devoção. Na volta, ela sempre me contava sobre o que tinham comido, como as montagens dos pratos eram bonitas. Quando o trânsito das imagens se banalizou, ela passou a me mostrar como de fato eram.
Vi pelas mãos dela a primeira salada, uma de suas preferidas, de chevre chaud. A receita: um bom punhado de folhas verdes, uma torrada de pão cascudo e pelotas de queijo de cabra por cima, quentes, mas não derretidas. Por cima costuma-se colocar algo doce, que pode ser uma geleia ou um pouco de mel. Essa é uma salada bastante popular em Paris. Qualquer lugar mais ou menos é capaz de apresentar um bom exemplar dela e quase sempre valem por uma refeição.
Depois foram as misteriosas alcachofras, que para ela foram sempre simples. A maioria de nós nem sabia o que fazer com aquela flor selvagem e ela já lhes arrancava o coração, ou servia as pétalas cozidas em água e sal com molho de mostarda e mel.
Aqui no Azul, nosso restaurante, seu prato preferido foi por muito tempo o pato, com arroz puxado no próprio molho. Uma vez ela nos disse que o sal nele estava um tom acima, no que concordamos, melhor aceitar o paladar dela.
Não sou amiga íntima da Jurema, mas também pendulo de lá para cá diante dos seus gestos tão elegantes, o que não me impediu de olhar para o que havia repousado na sombra da vida dela, e confesso, só vi coisas boas, sogra e mãe cuidadas por ela. A pontualidade e correção como professora, a lealdade como amiga e uma educação que não distinguia pobres e ricos.
Você faz falta Jurema, gostaria de tê-la por perto.

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