Simón Bolívar e o arroz de coco
Montado em lombo de cavalo, Simón
Bolívar cavalgou o suficiente para duas voltas e meia no globo terrestre.
Devido ao seu formidável calo nas nádegas, ganhou o apelido de cú de ferro -
diziam que ele dormia em cima do cavalo. É fato, a necessidade o impeliu a
empreender jornadas inacreditáveis, mas a paixão o motivava, à visão de cavalos
selvagens na campina, dizia ser a coisa mais bonita do mundo. Fiquei surpresa
ao saber que o império que Bolívar arrebatou da Espanha era cinco vezes maior
que a Europa e que ele não comia nada. A magreza extrema denunciava que chegava
a passar dias tomando apenas uma infusão de papoulas ou de ervas, outras vezes
um copo de vinho; prazer à mesa, ele sentia ao comer um mingau de milho feito
pela sua cozinheira índia, ainda que lhe fossem oferecidos ovos mexidos em
caçarola, pamonhas, morcelas, tigelas de chocolate denso.
Bolívar entrou na minha vida porque
Cartagena das índias foi nosso destino de férias, e essa cidade lhe foi fiel
mesmo depois de despojado de poder e glória. Além disso, a casa onde passou um
de seus últimos dias, embora não tenha falecido ali, ainda está lá, lindamente
restaurada. E por último, Gabriel Garcia Marquez (meu alvo principal naquela
cidade) dedicou-lhe uma biografia. Portanto, com meus dois interesses
históricos bem definidos, só me faltava saber o que comer.
Não tive qualquer dificuldade para
eleger a primeira investigação culinária, porque a curiosidade nascera na
adolescência: como sonhei experimentar o arroz de coco com que tantos
personagens do realismo mágico de Garcia Marquez se deleitaram. Tantas vezes li
seus personagens indo ao porto, à noite ou madrugada, se deliciar com esse
prato tão típico da Colômbia. Imaginava-o branquinho, quem sabe numa combinação
de leite de coco e coco fresco. Talvez coco verde, quando a carne do coco é
ainda uma geleia translúcida. Ou quem sabe, ainda o coco verde, com as carnes
formadas no auge de sua juventude, mas já decidido pela brancura das coisas
imaculadas. Ou bem poderia ser o coco seco, ralado, melhor, em tiras a exibirem
aquela linda e delicada passamanaria marrom. O tempero para esse prato seria o cheiro
verde - só que para o bom colombiano, cheiro verde atende pelo nome de coentro.
Foi o que imaginei.
Muito bem, tudo errado. Primeiro, ele
nem é branco, ele é moreno. Nada contra as comidas morenas, Deus é testemunha,
eu amo um queimado, mas é que arroz de coco tinha de ser branco. Mas não, o
coco desse arroz é queimado numa discreta calda de açúcar, que confere ao prato
um gosto de caramelo. Não é como arroz doce, ele é solto, embora haja uns
grumos. E ele não tem outro tempero, nada de pontinhos verdes, nem folhas de
coentro, nem pimenta. Gostei. Porém, fiquei com aquela sensação de leite morno
na boca.
É incrível a quantidade e a qualidade
das coisas que se pode fazer numa vida, mas que tão raramente são feitas. Dizem
que o mundo moderno matou a possibilidade de homens como Bolívar. Entendo e não
entendo. O libertador faleceu em cama emprestada, ouvindo os escravos, no
trapiche, entoarem ave-marias, numa debilidade física tal que devia estar
pesando 40 e pouco quilos, mas a alma intacta: “Carajos! Como vou sair deste labirinto?”
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