Baunilha: um capricho da Natureza
Imaginei que, quando chegasse numa
plantação de baunilha, eu seria arrebatada com aquele perfume cor de creme,
sobretudo se se tratasse da exótica e cobiçada Baunilha Tahitian. Mas não: as
grandes vagens cheiravam igualmente a todas as outras vagens que conhecemos, ou
seja, nada. Enormes vagens verdes encerravam no seu núcleo hermeticamente
fechado o tesouro perfumado, era preciso esperar.
Até bem pouco tempo, a única baunilha
que conhecíamos vinha do Dr Oetker, em vidros - ainda assim, usamos e abusamos
desse que vem a ser um dos cheiros que mais amamos.
Do perfume Chanel n.5 ao
creme pâtisserie, somos todos atraídos por ele e a vontade que se tem de
“comê-lo” é quase inevitável, uma sedução.
A baunilha é uma orquídea que dá flor,
mas se parece mais com uma trepadeira que se alastra e vai soltando vagens
verdes luzidias. Importante: de toda a grande família das orquídeas, o único
produto comestível é a baunilha. Ela foi descoberta pelos astecas, que, com
grande sabedoria gastronômica, as misturavam ao cacau, resultando na bebida por
eles batizada de xocolat. Então sabemos que a baunilha originalmente veio do
México e de lá ganhou o mundo pelas mãos dos espanhóis.
Existem duas grandes famílias de
baunilhas, a Bourbon e a Tahitian. A primeira é produzida em Madagascar e Ilha
da Reunião. Essas duas ilhas são responsáveis pela produção de mais de 70% de
toda a baunilha utilizada no mundo. E é essa qualidade que tem sabor e cheiro
mais potentes.
A que vimos é do tipo Tahitian, óbvio:
vem do Tahiti. E tem cheiro e sabor mais frutado, lembra uvas passas, cassis,
alcaçuz. Também por isso, vai bem até com carnes. E é perfeita para compotas.
Acostumados que estamos com a essência falsa de baunilha, não imaginamos as
nuances que existem entre as famílias de baunilhas, mas elas existem.
E o Brasil? Claro, descobrimos há pouco que no nosso
cerrado dá baunilha, que inclusive suas vagens são ainda maiores, embora o
perfume seja um pouco mais discreto. Há um belo restaurante em Brasília, o
Aquavit que faz um trabalho de descoberta das combinações dessa especiaria.
Mas por que seu preço é tão alto?
Aliás, é a segunda especiaria mais cara do mundo, perdendo apenas para o
pistilo de Açafrão. Porque a sua polinização é um drama. A orquídea dessa
espécie não se deixa fecundar, a planta é hermafrodita - e o que poderia ser
bem simples, se complicou. Uma membrana recobre o órgão feminino da planta que
impede que o pólen chegue até ele. O caso é resolvido por uma pequena abelha
que, enganada pelo odor que a flor solta, introduz seu ferrão cheio de pólen e
faz, por acaso, a polinização da orquídea. Por isso, ela é rara e cara, há que
haver uma combinação milagrosa da natureza para que tenhamos essa incrível
especiaria. Ah! Essa flor dura apenas 1 dia! É possível fazer a polinização
manualmente: levanta-se a membrana da flor e introduz-se um bambu bem fino
cheio de pólen, um trabalho igualmente desafiador. Por isso, ela deverá continuar rara e cara e com
uma aura de magia digna de ilhas como Madagascar e o Tahiti.

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