sexta-feira, 31 de março de 2017

O figo e minha infância


Não sei quando exatamente me foi apresentada uma banana ou uma maçã, mas sei dizer exatamente quando e onde eu conheci um figo. Eu tinha quatro anos de idade, nós morávamos na rua Homero Alves, um fim de mundo, naquele tempo. Não tínhamos lá um grande quintal, era mais um cimentado, que ostentava um buraco solitário, de onde uma teimosa árvore nasceu, cresceu e frutificou. Bonita, até: umas folhas desenhadas, meio ásperas, de estatura mediana, dava uma sombra suficiente à brincadeira de criança, nenhuma unanimidade de mangueira. Logo abaixo dela, três degraus que marcavam o início do corredor que dava direto na rua, não fosse pelo pequeno obstáculo - um portão de ferro onde eu encaixava os pés para poder me balançar. Durante esse ano de minha infância eu fiquei por ali:  casa, pé de figo e um portão que mais balançava que assegurava.

Vem dessa época também a lembrança de minha primeira desobediência. Já haviam me informado que lugar de xixi era na privada, mas todas as manhãs eu driblava minha mãe para poder fazer xixi no quintal, debaixo do pé figo, pelo prazer de ver o líquido escorrer escada abaixo. Almejava o dia em que ele alcançaria e transporia a rua para desfrutar de uma líquida liberdade.

Mas um dia, tudo mudou. Começou com um cheiro suave a insinuar que almas pequeninas também têm desertos. Eu já sabia que aquilo não seria simples como chuchu, a cada vez que eu o sentia era cutucada por algo indefinido. O perfume de minha mãe era Leite de Rosas, da vizinha Alfazema, o luxo era Toque de Amor, da Avon, e aquele cheiro de comer a brincar comigo, fazendo tudo a meu redor mais prazeroso: a casa, o xixi, o balanço no portão. Em tempo: minha mãe se prostrou debaixo do pé de minha árvore, colheu tudo e fez um doce. Claro, os figos da minha infância são os verdes dos deliciosos doces caipiras, uma pintura quando acompanhado por um pedaço de queijo fresco.

Mas meu assunto nem era desses aí, mas os roxos. “Roxos de Valinho” porque essa cidade é grande produtora dos figos roxos da nossa região - tão bonitos, perfumados. Com bom preço, ultimamente, eles foram a fruta por mim escolhida para compor a sobremesa de mais um jantar harmonizado com vinhos. Volto a falar disso. No entanto, o que me levou a pensar tanto nessa fruta foi a sua fragilidade, também pudera, ela é uma flor: o figo é uma inflorescência, que significa exatamente que ele termina em flor, por isso o perfume que não se define da cozinha ou da toalete. Por isso, seu invólucro é tão delicado e se estraga com a rapidez das horas.

Como é difícil comprar uma caixa de figos maduros, não podres. Aprendi que limpá-los, ao invés de lavá-los, é um pouco melhor; que geladeira só para os totalmente maduros, mas, claro, eles já podem estar podres. Mas com o tempo aprendi que eles combinam com tudo, seja do sal, seja do doce, seja à sedução. O doce ameno, a levíssima crocância em meio a tanta maciez é prato cheio para dias ou noites que se propuserem ao mínimo de magia. 

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