sexta-feira, 17 de março de 2017

Fruta-pão, o símbolo do Tahiti



Durante minhas andanças pelo outro lado do mundo, conheci um templo religioso quase não construído pelo homem, tendo por única intervenção um baixo e largo muro de pedras sobrepostas. Uma falha nesse muro determina a entrada, donde se deduz que a utilização da falha como porta era por puro respeito, uma vez que qualquer criança poderia facilmente pular o muro. Dentro, algumas pedras demarcavam o local que cada família deveria permanecer, pedras grandes, pedras pontudas, tinham uma função hierárquica que se perdeu no tempo. Ao redor de todo o muro, cresce uma folhagem que acreditam proteger os bons espíritos que ali habitam - deve-se arrancar uma folha, fazer uma prece, colocar a folha em cima do muro com uma pedra para segurá-la. O templo é pequeno, sombreado pela floresta formada por árvores de fruta-pão. Mas não era para todos: só a linhagem nobre poderia transpor o muro, o povo ficava de fora assistindo a cerimônia, que poderia ser até sacrificial.

E é a fruta-pão que é o símbolo do Tahiti. Pode-se vê-la plantada em todos os lugares, casas, praças, florestas. Os nativos não parecem mais comê-la, mas elas reinam absolutas e se integram muito bem à imagem que fazemos do Tahiti: uma natureza que tudo provê.
No entanto, o significado dessa fruta para o povo vai muito além da gastronomia. Quando adentramos a catedral de Papeete, uma bela construção que data do século XIX, somos recepcionados com a imagem de Nossa Senhora talhada na madeira e segurando um menino Jesus com cara de sapeca. Ele segura uma enorme fruta-pão. E se hoje os taitianos já não precisam tanto recorrer a ela, no passado a fruta-pão foi responsável pela manutenção da saúde, utilizada com sucesso contra o escorbuto, ela é fonte de energia que sozinha alimentava. Cortada em rodelas, poderia ser frita ou cozida, por isso ser considerada boa como um pão. E também por isso o significado espiritual, ser chamada de fruto de Maria ou pão de Jesus. Um correspondente nosso? A mandioca, com certeza!

Apesar de toda a “culturação” a que foi submetido o povo polinésio (último povo a receber a influência europeia) pode-se pinçar aqui e ali traços bem marcantes da cultura original. Permite-se, por exemplo, que os santos católicos, na igreja, sejam enfeitados com aqueles colares com os quais todos os turistas são presenteados. Os personagens da via-sacra estão vestidos com pareôs – trajes típicos da ilha. Nas ruas, as pessoas não usam sapatos, no máximo, chinelos. Mas vimos pessoas carregando os chinelos e pisando descalças as ruas. E todas as mulheres, independentemente da idade, da beleza, dos dentes, usam as flores no cabelo, do lado esquerdo, se casadas, do lado direito, se solteiras, tal qual uma aliança que une passado e presente.

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