Jejuns e temperança
Uma amiga, professora de ginástica, tem
se mostrado preocupada porque numa mesma semana duas alunas dela desmaiaram
durante a Zumba – uma aula de dança intensa que está na moda. O motivo? O
jejum. Quem nos escutou bem poderia ter associado a atitude das moças com o
período da quaresma. Estariam elas aproveitado a privação do prazer da comida
para uma suposta purificação da carne? Nada disso! Os antenados saberão se
tratar de uma novidade do mundo fitness, a saber, o jejum intermitente, uma das
novas armas para o emagrecimento rápido.
Santo Agostinho, muito antes disso
sabia: “o que basta à saúde é insuficiente para o prazer” - essa boa frase do santo
nos leva direto ao centro do trocadilho bobo que diz que a gente deve comer
para viver e não viver para comer. Para santo Agostinho, que se assumia
pecador, manter-se fiel a uma alimentação justa, ou seja, aquela que lhe
garantisse uma sobrevivência saudável e nada mais, era a garantia de afugentar
o prazer e os demais problemas advindos da gula.
Ao que parece, a nova técnica de se
ficar longos períodos sem consumir qualquer alimento tem dado resultados
práticos, embora bata de frente com a famosa orientação nutricional de se comer
de três em três horas que, aliás, aborrece muita gente. Sobretudo aqueles que
têm o hábito de só tomar café, almoçar e jantar. O jejum intermitente também veste como luva aqueles
que não gostam de tomar café da manhã. São muitas as pessoas que não sentem
fome pela manhã e partem direto para o almoço. Foi o caso das meninas que
desmaiaram, a dobradinha: esforço físico intenso e nada de café da manhã pode
nos levar a ver “estrelinhas”.
A ciência afirma ver benefícios na
saúde de quem faz jejum prolongado, o que se comprovou através da observação na
saúde do corpo dos fiéis que se submeteram aos longos jejuns religiosos: a
quaresma dos católicos, o Ramadã dos mulçumanos. Sinceramente, acho precipitada
essa conclusão. Se não for levado em conta o componente religioso, os pesos e
medidas materialistas serão insuficientes nesse caso. Porque a ciência também
já se pronunciou sobre os efeitos benéficos da prece e da fé no corpo físico do
Homem.
Então, não seria a temperança uma
virtude a ser cultivada? Uma boa alimentação, diversificada, prazerosa, que
garanta saúde ao corpo quer esteja em repouso, quer esteja em movimento, não
seria uma coisa boa? Uma outra amiga minha vê o jejum religioso atualmente como
algo metafórico: jejum ao ódio, ao preconceito, à intolerância - apreciei esse
entendimento secular.
Mas o exercício da fé, desmesurado, pode ser uma
deliciosa janela aberta para o sol, traduzida na humilde atitude de se repousar
os talheres.

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