A frase saiu crivada de indignação: uma
mulher sentenciava injustamente à morte uma mangueira: “mando cortar a árvore,
nem as frutas eu como, as crianças pegam as mangas verdes no pé, cutucam até
arrancar a fruta verdolenga”. Arrisquei uma pergunta, que foi recebida como
cinismo: “mas eles pegam a fruta para comer ou jogar fora?” Claro, era para
comer, mas um comer que não se concorda.
Pena. Não houvesse antipatia,
gostaria de lhe dizer que manga verde é comida, se harmonize ou não com isso. E
que as crianças, as poucas que ainda se aventuram nos pés de manga, deveriam
ser incentivadas a isso. E que, tampouco, há certo ou errado quanto ao ponto da
fruta – as preferências vão desde caldo escorrendo pelos cotovelos, pedaços
tenros partidos na faca e, porque não, até as totalmente verdes. É só questão
de gosto.
Se me recordo bem, as mangas verdes
boas de se comer são aquelas que, em algum ponto, demonstram uma queda para o
amarelo. Na verdade, não se vê o amarelo, ele é apenas adivinhado. Lembro-me
que, o sal e a faquinha de lâmina gasta e enferrujada, estavam sempre ao
alcance da gente. Mas o que ninguém esquece é o prazer da sombra compartilhada
da mangueira. Arrancar uma árvore assim é mexer num santuário infantil, num
ecossistema de quintal – a vegetação densa é peneira de trama fina que coa o
sol tão lentamente que ele esfria antes de atingir o solo. Embaixo dela, a
noite chega antes e se recolhe por último. Sua tepidez abriga uma serie de
bichinhos e uma discreta vegetação.
Não é crível que a mangueira não seja
brasileira, nem que venha de tão longe: da Índia. Com os primeiros portugueses
vieram as primeiras mudas, que se adaptaram extraordinariamente bem. Antropologicamente
falando, manga verde por aqui é coisa de moleque de vila. Elas raramente
atravessavam o umbral das portas de nossas cozinhas.
Muito diferente no país de
origem, onde além de fruto doce, suculento e sensual são também tempero,
salada, comida.
Uma das formas mais famosas para se
apreciar uma manga verde é o chutney
de manga verde. Mas nesse caso a manga perfeita é aquela que, de tão verde,
ainda não tem caroço firme.
Nina Horta recomenda espetar a fruta
com uma faca, que deverá penetrá-la sem resistência – assim, nunca comi. Mas a
manga verde vai muito bem como salada ou acompanhamento para qualquer tipo de
carne, refogada com cebola ou alho. Independentemente da preparação culinária,
o que se quer dela é o azedo, esse sabor maduro, provocador que não se define
nem ao sal nem ao doce.
É curioso que a manga nasça instigante
e logo se transforme num bebê de doçura.

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