Não é preciso ir a França para saber
que o savoir faire do francês teve o
pó espanado. Que o responsável pela remoção é o jovem presidente Macron, que a
França foi considerada o país do ano em 2017 pela imprensa inglesa e todos
estão de acordo que Emannuel Macron é a nova liderança política da Europa. Além
disso, seus frequentes embates ideológicos com o presidente americano o
colocaram do outro lado. Donald Trump
representa um conservadorismo branco, armado e cheio de excessos, seu discurso
no fórum de Davos foi claro: EUA em primeiro lugar! Macron, do outro lado,
preferiu palavras como irmãos, integração, clima. Na prática, não sei,
governantes falam e erram no mundo inteiro, mas importa sim o zeitgeist - nos movemos conforme o
espírito de nosso tempo. E achei que o espírito francês está melhor.
Busquei uma comida mais limpa dessa
vez, afastei-me do requinte e da tradicional cozinha francesa. Encontrei boas e
ótimas coisas. O Dépôt Légal é, sem
dúvida, uma delas. Só não é para almoço ou jantar especificamente, é daqueles
lugares que elegemos para matar a fome “fora de hora” ou para um lauto café da
manhã. Mas, claro, esse é um entendimento conservador. Para muita gente, uma
granola ou smoothies podem figurar
como refeição. Além disso, o local tem salada de quinoa, queijo feta e tomate.
O interessante do cardápio foi estabelecer a comida pelo recipiente. Assim, os bols (cuia) vem antes da descrição do
que eles contem.
Mas, sem dúvida alguma, a estrela do
lugar são os doces. A torta de limão vem com descrição soberba e não
decepciona; o merengue do chef é de citron
vert, a tradução: limão verde - limão Tahiti. Os chefs franceses salivam
pelo nosso citrino e demonstram a reverência que nós aqui dispensamos ao
caríssimo Siciliano. As éclairs,
similares as nossas bombas de chocolate, enfeitam a vitrine e chegam mesmo a
nos colocar em dúvida sobre o quanto merecemos nessa vida. Precisava mesmo de tanta
beleza para um desfrute tão fugaz? A leveza daquela massa, o caramelo salè, com o creme de chocolate amargo, a
fina placa de chocolate equilibrada em dois pingos de creme de baunilha, seriam
realmente precisos? Essas joias de comer são comuns aos franceses desde há
muito. Nós ainda somos traídos pelo olhar do colonizado.
Embora moderno, o local é apertado,
mesas e cadeiras pequenas e colocadas umas nas outras, o assunto é
compartilhado. O atendimento é rápido, o preço justo. A beleza e vestimentas
dos frequentadores sugeriu algo da moda entre os jovens.
Descrever a apresentação dos pratos
seria cansativo e ainda assim falho. Percebi o quanto há de contraste entre o
despojo do diálogo e o esmero das criações. Aliás, esse é o ponto essencial: a
França começa a acariciar vegetarianos e veganos, mas parece ter entendido
muito bem que esse público não está disposto a ser menos exigente - eles só não
querem comer carne.

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