quinta-feira, 15 de março de 2018

Sei


Há muitos anos, dispensei intacta uma sopa gratinada de cebolas. O garçom, levemente insultado, abaixou-se para me confidenciar que a sopa francesa intocada foi a preferida de Marilyn Monroe. Apontando uma porta lateral, me indicou por onde a estrela entrava e onde se sentava esperando um Kennedy - Bob ou John, não sei ao certo - que vinha pelos fundos, através do Plaza de Nova York. Se é verdade, não sei. Só sei que fui julgada como quem dá um mergulho na piscina tapando o nariz com a mão.

Novamente estou a pedir a clássica sopa francesa de cebolas, mas, dessa vez, não há medo algum. Digo ao garçom que estou ali justamente pela sopa, que minha irmã me indicara. Ele diz que é mesmo famosa a sopa deles, algo divertido, anuncia que Paris é grande, mas com certeza não tem melhor na região.

Sei tudo sobre a sopa de cebolas que ainda não chegou, ela virá num Cabeça de Leão, um clássico bowl de porcelana branca. Tapando toda a boca da tigela, haverá uma grossa fatia de baguete coberta por queijo gruyère gratinado, que se romperá com um pouco de pressão da minha colher. Isso permitirá que eu veja o caldo âmbar, potente, mas quase translúcido, onde se concentram os anéis caramelizados de cebolas – essa uma operação lenta, alguns chefs franceses dizem dourar a cebola por 5 horas! – Sei que queimarei a boca, não importa quanto cuidado eu tenha. Sei que será deliciosa a colherada que trouxer o caldo, a cebola e um pedaço de pão com queijo. Sei também que a boca pequena do pote não comporta um pedaço de pão suficiente para toda a sopa, haverá caldo sem pão.

Estamos, eu e minha filha, sentadas diante de uma grande vidraça que pode ser, ao mesmo tempo, espelho e janela. Ao meu lado, esfuziante, ela me conta algum caso do seu inebriante primeiro ano fora de casa, na faculdade. É ela em carne e ossos. Mas posso escolhê-la etérea no reflexo da vidraça e misturá-la aos que descem e sobem pela calçada do restaurante. Concentro-me em suas revelações que ajudam a desanuviar temores que não são de sopas de cebolas. Ela faz o “lá fora” parecer um bom lugar de se viver. Uma visão poderosa que preciso reter, sei que não chega para aquecer um quarto vazio, mas acalenta.

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