sexta-feira, 31 de março de 2017

A grandiosidade do baile da
Ilha Fiscal


A vida social da realeza brasileira foi ao mesmo tempo motivo de orgulho e decepção para nós, brasileiros. Orgulho, porque no comando do admirável Dom Pedro II o reino não dispendia dinheiro público para o regalo dos nobres. Decepcionante porque não se teve por aqui o luxo e beleza que caracterizaria a nobreza na sua quase totalidade mundo a fora. Parece bastante fácil saber o que é certo e o que é errado, mas não podemos nos esquecer das belezas deixadas pelas loucuras de reis como os Luíses da França. Um de nossos historiadores chegou a dizer que a falta de recepções sociais foi uma das causas da queda do império. Uma corte socialmente atuante seria fundamental para manter os seus súditos, bem como se fazer negócios.

Mas tivemos talvez um único momento glorioso, dentro de quase meio século do segundo reinado, um acontecimento capaz de fazer suspirar toda uma cidade, um baile que iluminou todo o Rio de Janeiro, o cais congestionou-se de populares que queriam ver as elegantes damas saírem de suas carruagens e adentrarem aos barcos atracados na Baía da Guanabara. Um evento que marcaria para sempre a história de nosso país.

O Baile da Ilha Fiscal foi organizado pela monarquia, que desejava homenagear o comandante e marinheiros de um navio chileno. A luz elétrica era uma quase novidade e, por isso, o império iluminou o quanto pode a ilha, prédios, a água, adivinhando o efeito mágico que seria ver a luz esparramada em negras águas.
O bufê ficou a cargo da Confeitaria Paschoal, que era a preferida de Dom Pedro II - não era a Colombo. Cerca de 90 cozinheiros e ajudantes se empenharam para que fosse tudo perfeito e em quantidades assustadoras, como as 12 mil porções de sorvetes para 3 mil convidados. A inclinação natural do cardápio foi francesa, a comida brasileira não possuía envergadura para tamanho glamour. Entre outras coisas, foram servidas 1.200 latas de aspargos, 1.200 frangos, 3.500 peças de caça, 1.500 costeletas de carneiro, 18 mil frutas, tudo regado a Champagne, Bordeaux e Borgonha.

Dizem que a festa transcorreu muito bem comportada enquanto a majestade se fazia presente. Mas que, madrugada já avançada, o que se viu foi bem menos elegante. Um dos jornais divulgou de forma sensacionalista a lista de objetos perdidos e encontrados na ilha, dentre eles, 16 ligas femininas, para alegria geral do povo.
O baile da Ilha Fiscal virou livro, porque muito além do luxo, marcou o fim da Monarquia e o início da República, digamos que um batismo de fogo para esse e o desterro daquele.

Dias depois, o Brasil já República, Rui Barbosa, Ministro da Fazenda, em inspeção a Ilha, ordenou que tudo viesse a baixo, porque um monumento ao Império. Para sorte nossa um engenheiro, republicano, estava presente e pediu como única consideração da República: que tudo fique no lugar. E está lá: um palacete de 2.300 m2, com vitrais coloridos que retratam de um lado Dom Pedro II, do outro, a Princesa Isabel.  É fácil ver a Ilha, ainda do avião, quando se chega ao Rio de Janeiro. Mas é pouco, deve-se ir até lá.

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